Fevereiro/2010 – Lua Galáctica do Falcão do Ano Semente Auto-Existente Amarela
 
:: CULTURA e EDUCAÇÃO

Mestre Baptista
Mestre Baptista está enfermo e necessita apoio da comunidade
MESTRE GRIÔ

O SAGRADO SOM DOS ORIXÁS


Rei Congo, Exu Velado e Sete Cruzeiros, orixás que dão ritmo ao mestre de bateria Neives Baptista. Aos 73 anos, o “Mestre Baptista” é carnavalesco premiado, com participações nas escolas Imperatriz da Zona Norte, Estácio de Sá, Academia do Samba, Estação e Telles. Em 2000, a convite de Giba Giba, integrou-se ao Cabobu, ensinando a confecção do instrumento Sopapo. Desde 2008, como o ancião que detém a sabedoria da tribo, é reconhecido pelo governo federal como Mestre Griô. Mas Baptista está enfermo e necessitando apoio. Como solidariedade, em dezembro houve programação – debate e música – no Comitê de Desenvolvimento do Loteamento Dunas (CDD).

Motorista de táxi, ele aguardava por chance para ingressar numa empresa de transporte. Avisado por amigo, soube de vaga e foi até à empresa de ônibus. Mas o proprietário ao receber Baptista, expressou “Ele não me disse que era um negro”. O fato é dos anos sessenta, mas a realidade pouco mudou. Sobre o racismo, o “Mestre Griô” afirma: “Existe e... como!!!”.

SABEDORIA – Em Pelotas são dois os mestres ‘Griô’. Além de Baptista também a senhora Sirley Amaro. Eles foram indicados através do então Ponto de Cultura Chibarro e, entre as atividades, participaram de oficinas do Ministério da Cultura. Baptista explica que o “Griô”, conforme a tradição africana é aquele cuja experiência de vida pode ser compartilhada com os mais jovens. Em setembro de 2007, Baptista esteve em Santa Catarina, participando de reunião dos Pontos de Cultura da Região Sul. Em novembro daquele ano também esteve no encontro nacional que ocorreu em Minas Gerais. Mas se o reconhecimento tem possibilitado a troca com outras realidades do País, é no Loteamento Dunas que o “Griô” Baptista estave dialogando com a garotada. Na Escola Municipal ele ministrou oficina sobre a confecção do instrumento Sopapo. Em 2008 as oficinas também foram levadas a Salvador e Rio de Janeiro.

TAMBOR daqui, o Sopapo oferece som grave. Baptista é mestre na confecção. A técnica praticamente desaparecida, foi resgatada por ele através do projeto Cabobu – designação que homenageia os carnavalescos Cacaio, Boto e Bucha. Ao final dos anos noventa, o pelotense Giba Giba conseguiu apoio do governo gaúcho e viabilizou o projeto. Baptista integrou-se à iniciativa – em 2000 foram duas edições com apresentações de talentos como Naná Vasconcelos, Djalma Corrêa, Paulo Moura, Chico César. Houve a confecção de quarenta instrumentos, que foram entregues a entidades carnavalescas de Pelotas, bem como de Porto Alegre e Rio de Janeiro. Para Baptista, no entanto, mais do que a sonoridade que distinguia o Carnaval de Pelotas, o tambor é instrumento espiritual e equival e ao “atabaque-rei”. Ele acrescenta: “O tambor é o som sagrado dos orixás”.

CARNAVAL – A festa popular deixou de ser participativa, tornando-se evento comercial. Afirmação de Baptista, que também menciona a folia local como imitação do Carnaval carioca. Embora reconheça que não se possa retomar o Carnaval que caracterizava Pelotas, frisa que a imitação também não é a solução. E, como etapa dessa mudança, a perda da batida que o Sopapo proporcionava. Ao invés do instrumento autêntico da história negra de Pelotas, houve a opção pelo “surdo de terceira”, invenção daqueles que desconheciam a afinação proporcionada pelo Sopapo. A observação, porém, não impede a Baptista o destaque à evolução e beleza das escolas de samba da cidade. O resgate do Sopapo, menciona, daria outro ritmo à festa. Mas as escolas necessitariam de na ipe de Sopapos, o que se torna difícil pois a confecção é artesanal e cada instrumento custa mais de R$400,00.

ESPIRITUALIDADE – “Assim como Papai Noel, o Diabo também não existe. Mas é preciso estudar para compreender isso. E existem as formas corretas para orientar, ensinar e manipular as energias. Minha vida nada seria sem a profundidade que alcancei através da espiritualidade. A religião afro sempre vai existir, mesmo que tenha sido afetada pelo branqueamento da cultura européia”, diz Baptista.

CULTURA – Em 1954 ele prestou serviço militar em Bagé, e lá compôs o primeiro samba “2º Esquadrão”. Como motorista profissional, se foi barrado naquela empresa que não queria um negro no volante, a vida tratou de colocá-lo na Penha, onde conduziu viagens interestaduais até a aposentadoria em 1989. Anos noventa, e a presença no bloco Nega Má Fuça, criação da Bateria-Show Santa Teresinha – tocou em Santa Catarina e no Uruguai -, atualmente Uirapuru e sob a regência do filho Neives José. Baptista também idealizou o grupo “Filhos de Zumbi” que, através da professora Maritza Ferreira, se tornaria o atual Projeto ODARA. Umbandista, é casado com a dona Maria. Como projetos, CD com os sambas ainda inéditos, e até livro com capítulos que a v ida foi tecendo. “Tudo que se refere à cultura me agrada. Sou negro em movimento. Sou feliz”, conclui.


* Jornalista, Editor de "Cultura" do jornal Diário da Manhã. Professor de Filosofia – Pelotas/RS.
E-mail: carloscogoy@uol.com.br

* foto: Carlos Cogoy


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