Janeiro/2009 – Lua Rítmica do Lagarto do Ano Tormenta Elétrica Azul
 
:: CULTURA e EDUCAÇÃO

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foto: Vilmar Tavares
Jeferson é o primeiro filósofo clínico de Pelotas

FILOSOFIA CLÍNICA

DESVENDANDO ESTRUTURAS DE PENSAMENTO


O saber filosófico como substrato à clínica terapêutica. Sistematizada há mais de dez anos pelo gaúcho Lucio Packter, a Filosofia Clínica é especialização acessível a graduados em filosofia. Em Pelotas, o primeiro filósofo clínico é Jeferson Pons Cruz, que concluiu a formação ano passado. Habilitado à prática, ele informa sobre a proposta terapêutica. Contatos: 3302.6488; 9147.0378. E-mail: jefersonponscruz@hotmail.com.

Ansiedade, angústia, incerteza, mágoa, desmotivação, conflitos. O cotidiano estressa, a história pessoal sofre aos solavancos com perdas e dores. Algumas das inúmeras causas de mal-estar, desconforto e sofrimento psíquico. A filosofia, precursora conceitual de áreas como a psicanálise e psicologia, além da pesquisa e sala de aula – lei recente autorizou o retorno à escola –, também dispõe de viés clínico. A proposta que está prestes a completar quinze anos, e foi alvo de polêmica na década de noventa, expandiu-se no País e exterior. Para clinicar, o graduado em filosofia – principal exigência –, tem de cursar a especialização. O pelotense Jeferson Cruz ano passado concluiu a formação, participando das etapas ministradas pela equipe do Instituto Packter.

ESPECIALIZAÇÃO – Jeferson é licenciado em filosofia pela UFPel, onde também cursou a especialização em Filosofia Moral e Política. A especialização em filosofia clínica, conforme explica, teve duração de dois anos. A parte teórica garante o Certificado B. Já a prática clínica é que faculta o Certificado A, habilitando para a filosofia clínica. Reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC), a especialização também já é oferecida a distância. Jeferson conta que já obteve alvará na Prefeitura, identificando-se como terapeuta. Sua proposta inicial é o atendimento a domicílio.

CATEGORIAS – À medida que é procurado por ‘partilhante' – designação adotada –, o filósofo clínico tem de obedecer rigoroso Código de Ética. Ele não pode prejulgar, diagnosticar ou inferir avaliação. Conforme Jeferson, a relação estabelecida será como ‘caminhar de idéias'. O filósofo clínico frisa que o partilhante não terá de ler textos áridos, nem peregrinar por reflexões de pensadores que remontam à antiga Grécia. A história do pensamento ocidental, apreendida pelo filósofo durante a formação acadêmica, estará permeando a prática que dispõe de etapas bem definidas. Assim, através de encontros com duração de cinqüenta minutos cada, o filósofo estará gravando os relatos do partilhante. Somente com as informações coletadas é que poderá ser avaliada e organizada uma teoria. Trata-se de inicialmente localizar existencialmente o partilhante. Com isso, são examinadas categorias como assunto, circunstância, lugar, tempo e relação. Na base disso, a contribuição de pensadores como Aristóteles e Kant. Entre as ferramentas pode estar – cada caso é singular –, o empirismo de John Locke.

ESTRUTURA DE PENSAMENTO é o desafio a ser desvendado pelo filósofo clínico. Para isso, considera que, como definiu Arthur Schopenhauer, cada um tem sua ‘representação'. Mas, com base nas falas e informações do partilhante, o filósofo vai detectando tópicos. São trinta. Alguns: como o mundo parece; o que acha de si mesmo; emoções; pré-juízo. Por conta das interseções, relações com o outro, as estruturas de pensamento oscilam, alteram-se. A estrutura expressa-se através de submodos informais. São 32. Para entendê-los, recursos como a argumentação derivada, esquema resolutivo, ou até a reconstrução, possibilidade baseada em autores como Ludwig Wittgenstein.

foto: divulgação
Lucio Packter sistematizou a alternativa
PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA CLÍNICA

O filósofo clínico deve manter sigilo quanto às informações confidenciais de que tiver conhecimento no desempenho de suas funções. Uma das recomendações do Código de Ética da Atividade de Filósofo Clínico. A postura deve ser de ‘respeito, honestidade e carinho'. Como princípios, estabelece que "tanto para a colheita das categorias, como para o estudo do histórico da Estrutura de Pensamento da pessoa e para a aplicação dos submodos, devemos nos basear, única e exclusivamente, nos dados literais e lógicos, via bom senso, que por ela são fornecidos, com o mínimo de agendamento possível. Então, a priori não podemos classificar a pessoa em tipologias e-ou usar teorias pré-definidas, tentando enquadrá-las em uma delas".

ORIGEM remonta à década de oitenta. Lúcio Packter que, além da filosofia, possui formação em psicanálise e psicologia, observou os aconselhamentos feitos por filósofos na Holanda e Alemanha. Motivado pela possibilidade aberta à filosofia, ele sistematizou ‘filosofia clínica'. O curso de especialização tem se expandido, e já é ministrado em diferentes localidades. Na Internet: www.filosofiaclinica.com.br.


* Jornalista, Editor de "Cultura" do jornal Diário da Manhã – Pelotas/RS.
E-mail: carloscogoy@uol.com.br


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