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ARTIGO
O
SAGRADO
* Sergio
Frug *
Na adolescência me
dizia ateu.
Em tempos de esquerda festiva, a religião era o
ópio do povo. E era mesmo, já que as cerimônias
de que participava não me aproximavam do meu ser,
não me ofereciam a noção de sagrado,
não me sugeriam o êxtase espiritual.
Mas se definirmos como sagrado o contato com a própria
alma, sem dúvida o sofrimento das grandes perdas
fez a sua parte e foi a dor quem me acordou, ou recordou,
de alguma coisa antiga e profunda que era eu, mas que
não se podia ver no espelho, nem servia para nenhuma
apresentação social.
Talvez ainda não viesse a me dar conta, mas doendo,
o sagrado começava a buscar o seu espaço
em meu interior.
Dessa forma não foi preciso estudar em catecismos
ou seguir nenhuma regra estabelecida para conhecer aquilo
que a vida naturalmente mostrava e desenvolvia dentro
de mim.
Mas a dor fez o seu papel e aí é preciso
tomar muito cuidado para não identificar a dor
com o sagrado, pois a dor é apenas um caminho natural
que vem quando vem e não algo a ser buscado como
experiência devocional ou transcendente.
Um tênue fio de navalha separa o encontro do sagrado
através da dor que se manifesta na vida, de uma
experiência simplesmente masoquista, ou de autoflagelação,
sem nada a ver com o sagrado verdadeiro.
Enfim, mais do que as conquistas materiais, como a formatura,
o primeiro emprego ou as promoções; as grandes
perdas é que foram moldando o meu coração
e criando as mais profundas experiências de vida.
Os encontros, em contrapartida às perdas, também
exerceram esse tipo de efeito. O meu casamento, em cerimônia
apenas civil, me fez transbordar de uma alegria superior
(ou sagrada), ainda que na época não soubesse
apreciar e nem me comportar de forma adequada para melhor
desfruta-la. Mas a alegria não deixou de ser tão
grande quanto a própria dor da rápida separação,
após poucos anos de difícil convivência,
mas não sem antes gerar um outro encontro de magníficas
proporções: o nascimento da minha filha,
cuja presença até hoje é mais capaz
de evocar o sagrado à minha alma do que conseguem
realizar quaisquer religiões.
A separação foi um marco, pois a partir
daí e já de forma gradativamente consciente,
reconheci que não me conhecia e tratei de buscar
a mim mesmo.
E assim surgiram formas mais amenas e menos dolorosas
de contatar o sagrado.
Muitas vezes os passes kardecistas, inúmeras vezes
no consultório dos queridos terapeutas ou nas aulas
de movimento do Sistema Rio Aberto, inexplicavelmente
pouco conhecido e pouco valorizado em nosso país;
e mais tarde em inúmeras cerimônias xamânicas
como as saunas sagradas, as danças e as rodas de
cura. O contato com a alma vai se tornando intenso e criativo,
diminuindo a necessidade de sofrer perdas e preparando
para profundos processos de autotransformação.
E é assim que essa energia vem se mostrando fundamental
em minha vida, enchendo-me o coração de
alegria, gerando uma sensação de confiança
não gratuita, mas quase absoluta, de que o destino
que se manifesta é o que há de mais perfeito
e adequado para o desenvolvimento de um Ser Integral e
Orgânico, útil não apenas para si,
mas para toda a sua comunidade e para toda a sua espécie
de forma especial...
* engenheiro
eletricista, astrólogo, tarólogo, terapeuta
holístico e praticante de Xamanismo – Cotia/SP.
E-mail: sfrug@uol.com.br
Ed. 55 - Maio e Junho/2006 - Lua Cristal do Coelho do
Ano Semente Cósmica Amarela
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