Junho/2006 – Lua Cristal do Coelho do Ano Semente Cósmica Amarela
 
:: ARTIGO

O SAGRADO

* Sergio Frug *

Na adolescência me dizia ateu.

Em tempos de esquerda festiva, a religião era o ópio do povo. E era mesmo, já que as cerimônias de que participava não me aproximavam do meu ser, não me ofereciam a noção de sagrado, não me sugeriam o êxtase espiritual.

Mas se definirmos como sagrado o contato com a própria alma, sem dúvida o sofrimento das grandes perdas fez a sua parte e foi a dor quem me acordou, ou recordou, de alguma coisa antiga e profunda que era eu, mas que não se podia ver no espelho, nem servia para nenhuma apresentação social.

Talvez ainda não viesse a me dar conta, mas doendo, o sagrado começava a buscar o seu espaço em meu interior.

Dessa forma não foi preciso estudar em catecismos ou seguir nenhuma regra estabelecida para conhecer aquilo que a vida naturalmente mostrava e desenvolvia dentro de mim.

Mas a dor fez o seu papel e aí é preciso tomar muito cuidado para não identificar a dor com o sagrado, pois a dor é apenas um caminho natural que vem quando vem e não algo a ser buscado como experiência devocional ou transcendente.

Um tênue fio de navalha separa o encontro do sagrado através da dor que se manifesta na vida, de uma experiência simplesmente masoquista, ou de autoflagelação, sem nada a ver com o sagrado verdadeiro.

Enfim, mais do que as conquistas materiais, como a formatura, o primeiro emprego ou as promoções; as grandes perdas é que foram moldando o meu coração e criando as mais profundas experiências de vida.

Os encontros, em contrapartida às perdas, também exerceram esse tipo de efeito. O meu casamento, em cerimônia apenas civil, me fez transbordar de uma alegria superior (ou sagrada), ainda que na época não soubesse apreciar e nem me comportar de forma adequada para melhor desfruta-la. Mas a alegria não deixou de ser tão grande quanto a própria dor da rápida separação, após poucos anos de difícil convivência, mas não sem antes gerar um outro encontro de magníficas proporções: o nascimento da minha filha, cuja presença até hoje é mais capaz de evocar o sagrado à minha alma do que conseguem realizar quaisquer religiões.

A separação foi um marco, pois a partir daí e já de forma gradativamente consciente, reconheci que não me conhecia e tratei de buscar a mim mesmo.

E assim surgiram formas mais amenas e menos dolorosas de contatar o sagrado.

Muitas vezes os passes kardecistas, inúmeras vezes no consultório dos queridos terapeutas ou nas aulas de movimento do Sistema Rio Aberto, inexplicavelmente pouco conhecido e pouco valorizado em nosso país; e mais tarde em inúmeras cerimônias xamânicas como as saunas sagradas, as danças e as rodas de cura. O contato com a alma vai se tornando intenso e criativo, diminuindo a necessidade de sofrer perdas e preparando para profundos processos de autotransformação.

E é assim que essa energia vem se mostrando fundamental em minha vida, enchendo-me o coração de alegria, gerando uma sensação de confiança não gratuita, mas quase absoluta, de que o destino que se manifesta é o que há de mais perfeito e adequado para o desenvolvimento de um Ser Integral e Orgânico, útil não apenas para si, mas para toda a sua comunidade e para toda a sua espécie de forma especial...



* engenheiro eletricista, astrólogo, tarólogo, terapeuta holístico e praticante de Xamanismo – Cotia/SP.
E-mail: sfrug@uol.com.br


Ed. 55 - Maio e Junho/2006 - Lua Cristal do Coelho do Ano Semente Cósmica Amarela


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